Um breve esboço da problemática questão da dependência química e sua prevenção
"Desde os primórdios, até hoje em dia, o
homem
ainda faz o que o macaco fazia".
O progresso é um fato comum no nosso
dia a dia, entretanto, entendemos que é possível relacionarmos diversas
situações super evoluídas com situações da antiguidade.
O homem primitivo da caverna deu o
pontapé inicial ao uso das drogas com os cogumelos psicodélico. No fim
do século XIX, muitos produtos viraram, em laboratórios, drogas
sintetizadas. A vida
humana
interage num metabolismo complexo com toda a vida natural e, ao
transformá-la, também transforma a si mesma. Somente no século XX, nos
EUA, é que começaram a surgir proibições globais ao uso de, a princípio,
entorpecentes.
Os nossos exemplos em cinemas e
televisão nos mostram que o bem ou mal não estão tão fortemente de lados
opostos, pois hoje, em muitas situações, torcemos para os vilões e,
muitas vezes, eles são mais queridos que os heróis. O Coringa, Conde
Drácula, Freddy Krueger... Hoje, na vida real, quem usa droga nem sempre
é visto, principalmente para a camada menos abastadas da sociedade,
como vilão. As pessoas envolvidas no uso são pessoas confiáveis. Sim,
confiáveis. Muitas vezes
os melhores amigos,
outras vezes os mais populares, os únicos que nos compreendem, os que
nos identificamos. "Encontrei minha tribo" - pessoas que me entendem,
que têm os mesmos gostos, que pensam como eu, que não me criticam, que
me aceitam como eu sou e, até mesmo, que enxergam atitudes positivas em
"mim", me elogiam. Ele tem isso em casa?. Provavelmente não.
Com isso, temos a clara percepção da falê
ncia do papel da família na formação estrutural-psicológica desse ser
humano.
Se a matemá
tica que é tão lógica não é compreensível para muitos jovens, como fazê-lo entender que o uso de uma substância que lhe
acarreta
o bem estar, muitas vezes de imediato, poderá ser muito nociva no
futuro (e porque não em um presente constante)? Como fazê-lo entender
que ele pode enfrentar uma situação nova ao ser "obrigado" por ele mesmo
a usar uma substância que não lhe traz mais prazer? Que sua vontade,
por maior que seja, perde para a sua necessidade de usar a droga. Ele
nunca viveu isso, ele tem a ideia que isso nunca vai acontecer, que ele
sempre vai manter o controle da situação. "Eu paro quando eu quiser"
essa é a frase mais ouvida entre os jovens que abusam do uso da
substância.
Talvez seja por isso que é tão difícil a conscientização, aceitação e aderência ao
programa de prevenção ao uso de drogas, seja por quem usa, ou seja pelo Estado, que
muitas vezes trata o tema de forma completamente errônea.
Neste texto vamos dar foco, de forma
breve e
objetiva, na prevenção do uso de drogas. A prevenção ao uso de drogas é dividida em 3 fases.
A prevenção primária: busca evitar a fase da paquera com
droga. É a fase que a pessoa vai sendo seduzida por ela, vai se aproximando, tendo noção do bem estar que ela pode trazer.
"O primeiro contato que tive com as
drogas foi com amigos, aos 15 anos de idade, e não possuia muita
informação sobre elas e o que era a
dependência
química. Pelo fato de não ter esse conhecimento e nenhum exemplo por
perto, pois nunca havia tido contato com nenhum dependente que houvesse
chegado ao "fundo do poço", nunca acreditei que me tornaria dependente".
(R.S.I)*
Pense no comercial
da cerveja, sempre muito festivo, com pessoas bonitas e felizes. As
pessoas sentem vontade de entrar nesse mundo pelo simples fato do
cérebro associar, involuntariamente, aquela imagem que vê com o uso da
substância nociva.
O papel de prevenção primária que o
Estado deveria fazer, aqui é totalmente o inverso. Ele estimula o uso,
de forma implícita e desleal, para depois trazer o problema, que ele
mesmo criou, para si. É como se alguém clonasse o próprio cartão de
crédito e contratasse um advogado para apurar o fato. Não tem nexo!
O objetivo da prevenção primária é
evitar que o uso de drogas se instale ou retardar o seu início. É o
conjunto de ações que visam evitar o adoecer, além de promover a saúde. E
é aqui, na nossa visão, que o Estado tem que agir de forma eficaz e não
de forma irresponsável como vem agindo.
Que temos problemas e deficiências para
isso, todos nós sabemos, mas temos que arregaçar as mangas, diante da
inércia do sistema estatal, e começar pelo caminho inverso, se for o
caso, para almejarmos uma eficácia real na fase preventiva. E o que é
"caminho inverso"?
Hoje, e sempre, a fase da prevenção
primária vem sendo feita de baixo para cima, ou seja, começa sempre nas
camadas menos abastadas da sociedade. Pensamos da seguinte forma: a
prevenção desta forma é válida, mas não pode ser a única, pois "desde os
primórdios" ela é feita e os resultados não estão sendo satisfatórios.
Esta fase de prevenção tem que ser muito bem feita, ao nosso ver, quando
se ainda é criança (aqui dos 8 aos 12 anos incompletos) onde ela (a
criança) começa a ter discernimento e conhecimento daquilo que se
apresenta como "o novo".
"A maconha era uma droga leve, legal e
na moda. Na época uma banda que exaltava o entorpecente estava
"estourando". Hoje percebo que tinha uma necessidade pessoal de ser
aceito por determinados grupos e então passei a fumar maconha". (R.S.I)*
E é nessa fase que temos uma visão de
prevenção primária, onde, esta, deve-se começar de cima para baixo.
Pensamos que as medidas de prevenção devem ser intensificadas, também,
nas camadas mais nobres, pois nela o acesso a informação, educação e
cultura de qualidade é mais amplo. Desta forma, mesmo ainda criança,
fortalecerá suas bases para que se faça algo efetivo neste assunto. Vale
ressaltar, também, que é, na maioria das vezes, na camada nobre que
"surgem" os grandes fornecedores de drogas.
Pensamos em uma prevenção primária,
onde, deve-se levar para a camada de "cima" os efeitos reais que a
camada de "baixo" sofre. Óbvio que sabemos que existem pessoas com
problemas de dependência em todas as camadas, mas é comprovadamente na
malha popular da sociedade que o problema é mais presente.
Deixamos claro que não estamos sendo
discriminatórios em relação às pessoas mais carentes em nossa colocação,
mas é uma realidade que se vive e que, infelizmente, não estamos
colhendo bons frutos. Em outra oportunidade, falaremos mais
detalhadamente desta visão que temos.
"Passei a ter como referência de
comportamento estes novos "amigos" dos grupos que passei a frequentar.
Nesta fase de paquera, a cocaína ainda estava distante, pois na minha
cabeça era uma droga muito forte e o crack uma droga de "nóia", de
pessoas muito loucas e que não eu nunca usaria na minha vida". (R.S.I)*
Prevenção Secundária: é indicada para o
indivíduo que começou o namoro com a droga. O namoro envolve
compromisso. É como se a pessoa saísse para encontrar a droga. O namoro
ainda tem seus encantamentos, surpresas, exageros, paixões,
expectativas, querer o reencontro. Nesta fase, obviamente, a fase
primária não existiu ou, se existiu, não funcionou por algum fator. Pois
bem, quando o indivíduo começa um namoro com a droga, ele entra nessa
fase de compromisso agradável, com alguns exageros, faz questão
de estar próximo a ela da mesma forma de quem namora quer estar com o
namorado(a). Quem usa drogas quer fumar, cheirar, beber...
"Rapidamente já senti a necessidade de
comprar a minha própria droga, pois não conseguia depender dos outros,
queria usar a hora que me desse vontade. Este foi o início da minha fase
de namoro com as drogas. Fui apresentado para as "bocadas e comecei a
andar com pessoas que não usavam apenas maconha, usavam outros tipos de
drogas". (R.S.I)*
Prevenção secundária destina-se a
pessoas que já experimentaram drogas ou usam-nas moderadamente. Tem como
objetivo evitar a evolução para usos mais frequentes e prejudiciais.
Isso implica um diagnóstico e o reconhecimento precoce daqueles que
estão em risco de evoluir para usos mais prejudiciais.
Nesta fase, a prevenção tem que ser
feita de forma avassaladora, pois é nela que a pessoa larga ou se apega
de vez às drogas. Aqui o papel da família, dos amigos e programas
sociais, efetivos e de qualidade, é fundamental.
"Pelo convívio com pessoas que usavam as mais diversas drogas e tendo fácil acesso a elas, foi
questão
de tempo para que experimentasse a cocaína. A maconha acabou sendo a
porta de entrada para o relacionamento com o tráfico de drogas e as
drogas mais "pesadas". Através dela conheci pessoas que utilizavam
outras drogas e pelo relacionamento diário com essas pessoas usando
essas drogas, meus conceitos de que eram pesadas e o medo de utilizá-las
foram embora". (R.S.I)*
Prevenção Terciária: o casamento com a
droga acontece nessa fase, agora o amor não é mais o responsável pelo
vínculo e sim a dependência. Quando se casa é que se conhece o cônjuge,
da mesma forma, quando se casa com a droga é que se conhecem os pontos
negativos.
"Meu casamento com as drogas começou a
partir do momento em que comecei a usar cocaína frequentemente. Nesse
ponto, tudo que havia aprendido com meus pais sobre o que era certo e
errado ficou distorcido. Pequenos furtos, tráfico de drogas, mentiras e
manipulações eram normais. Meu pais descobriram o uso e por mais que
tentassem me controlar, nada funcionava, eu afundava cada vez mais,
passei a usar todos os tipos de drogas e bebida". (R.S.I)*
Não encontra-se solução para esse
casamento. A separação acontece por um tempo mas percebe-se quão difícil
é a separação definitiva. A qualquer momento a relação difícil pode se
restabelecer e vem com a mesma força e dependência do ponto de onde
parou o uso. Isso significa que o vício fica adormecido e a qualquer
momento que reativar o uso, voltará na mesma força que estava quando
parou ao invés de voltar do ponto de partida.
"Isso tudo fez com que meus pais se
preocupassem e me obrigassem a passar por diversos tipos de tratamento.
Eu os fazia para agradá-los e disfarçar para poder continuar usando
tranquilamente. Nestes tratamentos absorvi muita informação sobre
dependência quí
mica.
Eu não acreditava ser um dependente, não percebia as consequências que o
uso estava trazendo em minha vida e achava que pararia quando quisesse.
Este auto-engano me fez chegar ao "meu
fundo de poço", tentei parar diversas vezes e de diversas formas, mas
nada funcionou". (R.S.I)*
Dependência Química
A Organização Mundial de Saúde (OMS) através do Código Internacional
de Doenças (CID-10), preconiza que a dependência química é uma
enfermidade incurável e progressiva, apesar de poder ser estacionada
pela abstinência. Isso significa que é tratada como doença que vai se
manter para sempre com a pessoa, assim sendo, não existe "ex dependente"
mas sim dependente em abstinência.
"Então resolvi pedir ajuda, mas desta
vez, com um real desejo de parar de usar. Iniciei um tratamento
realmente focado e comecei a usar todas as ferramentas, a mim
apresentadas, para me manter abstinente" (R.S.I)*.
Diretrizes da OMS para diagnóstico de Dependência
1- Forte desejo ou compulsão para usar a substância;
2- Dificuldade em controlar o consumo da substância, em termos de início, término e quantidade;
3- Presença da síndrome de abstinência ou uso da substância para evitar o aparecimento dela;
4- Presença de tolerância, evidenciada pela necessidade de aumentar a quantidade para obter o mesmo efeito anterior;
5- Abandono progressivo de outros interesses ou prazeres em prol do uso da substância;
6- Persistência no uso, apesar das diversas consequências danosas.
As estratégias específicas e globais do
tratamento visa prevenir a recaída e a terapia cognitivo comportamental
enxerga a recaída como fator de estudo e readaptação das técnicas, ao
invés de punir o paciente. São três categorias principais: treinamento
de habilidades, reestruturação cognitiva e intervenção no estilo de
vida. A prevenção de recaída segue um manual de mudanças de
comportamentos que inclui um estudo individualizado de situações de
risco, motivação, para, então, definir os novos hábitos a serem
adquiridos e posterior enfrentamento das situações de risco. Aqui
estamos falando de prevenção terciária e permanente.
"O meu relacionamento com a família foi
retomado e estou assumindo responsabilidades que jamais pensei em
tê-las. Com relação aos antigos "amigos", me afastei de todos e estou
em um processo de fazer novas amizades". (R.S.I)*
Quem é feliz não precisa de drogas. O
jovem busca para ter a sensação de bem estar, portanto, o tratamento ao
dependente químico é voltado a sua dificuldade emocional. Se o jovem
está deprimido, ansioso, ou outro sintoma negativo, ele usa a droga para
não ter, por alguns instantes, esse sentimento ruim. Assim sendo, o
tratamento inclui o entendimento de seus conflitos emocionais, o motivo
pelo qual o adicto precisa dessa dose artificial de prazer. Por fim, o
tratamento inclui a descoberta e prá
tica dos prazeres da vida.
*R.S.I, 30 anos, dependente químico.
Está 2 anos em abstinência após passar 7 meses em tratamento intensivo
em clínica de reabilitação. Tem uma vida, social e profissional, normal
contribuindo com seu testemunho em programas voluntários de prevenção às
drogas.
Autores
Denis Caramigo
Ednea Dias